quarta-feira, 23 de março de 2011

Os três últimos minutos...

Qualquer discussão a respeito do fim do universo nos põe face a face com questões relativas ao propósito. Já observei a perspectiva de um universo moribundo ter convencido Bertrand Russel da inutilidade da existência, sentimento que encontra eco mais tarde em Steven Weinberg, cujo livro Os três primeiros minutos culmina com a dura conclusão de que “quanto mais compreensível parece ser o universo, mais desprovido de sentido também parece ser”. Argumentei que o medo original de uma lenta morte térmica fosse talvez exagerado, e talvez até mesmo equivocado, embora a morte súbita por uma grande implosão continue sendo passível de ocorrer. Especulei a respeito da atividade de superseres que houvessem conquistado objetivos miraculosos, físicos e intelectuais, vencendo a adversidades, e também fiz um breve exame da possibilidade de os pensamentos não conhecerem fronteiras, ainda que essas existam para o universo.

Mas podem esses cenários alternativos aliviar nossa sensação de incômodo? Um amigo meu declarou certa vez que, de tudo que ouvira a respeito do paraíso, nada lhe pareceu interessante. A perspectiva de viver para sempre num estado de sublime equilíbrio não exercia sobre ele atração alguma; melhor morrer de maneira rápida, ter um fim, do que enfrentar o tédio da vida eterna. Se a imortalidade limita-se a ter os mesmos pensamentos e experiências repetidas vezes para sempre, ela realmente parece não ter sentido. Contudo, se a imortalidade pode ser combinada com o progresso, podemos então imaginar uma vida num estado de inovações perpétuas, sempre se aprendendo ou fazendo algo novo e excitante. A questão é: para quê? Quando seres humanos embarcam em uma projeto com um propósito, eles têm em mente um objetivo específico. Se esse objetivo não é atingido, o projeto terá fracassado (ainda que a experiência possa ter sido válida). Por outro lado, se o objetivo é alcançado, o projeto terá sido concluído, e a atividade cessará. Pode haver um propósito verdadeiro para um projeto que nunca é concluído? Pode a existência ter sentido se ela consiste numa jornada sem fim rumo a um destino que nunca é alcançado?

Se existir um propósito para o universo, e se ele atingir esse propósito, esse universo deverá então ter um fim, pois sua continuidade seria gratuita e desprovida de sentido. Ou, visto de outra forma, se o universo perdurar por toda a eternidade, fica difícil conceber a existência de qualquer propósito final que seja para o universo. Assim, a morte do cosmos pode ser o preço a ser pago pelo seu sucesso. Talvez, o máximo que possamos esperar a propósito do universo torne-se conhecido por nossos descendentes antes do término dos três últimos minutos.

Últimos parágrafos do livro "Os Três Últimos Minutos: Conjeturas sobre o destino final do universo". Cujo autor é Paul Davies (professor de Filosofia Natural da Universidade de Adelaide, Austrália)



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