terça-feira, 22 de março de 2011

“Foi como se um dia de sol, de repente, virasse noite”


O Flamengo ainda sangrava a perda de Zico para a Udinese, e fez as malas para ir à Itália. Era o dia 20 de junho de 1983 e, na véspera, o time havia realizado sua primeira partida desde a venda de seu maior ídolo. Sem alma, o Flamengo perdeu um amistoso para o Uberlândia. Mas não havia tempo para lamentos e um dia após a derrota a delegação já estava no Galeão, para seguir rumo ao Mundialito de Milão. Antes, no entanto, uma amarga pausa em Udine. Zico estrearia pela Udinese justamente contra o Flamengo. Na fila do embarque, perguntado se estava pronto para enfrentar Zico, Mozer nem levantou a cabeça para responder: “Nunca vou estar pronto para isso.”

Zico também não estava pronto para enfrentar o Flamengo. Era para ele a festa no estádio de Friuli no dia 22 de junho, mas Zico não estava para festas. O jogo marcava também a despedida de Surjak do time italiano, e Zico entraria em seu lugar aos 40 minutos do primeiro tempo para jogar somente até o final daquela etapa. Cinco minutos que pareceriam séculos.

Do banco, com a camisa do adversário do Flamengo, Zico viu o time que defendeu desde a adolescência desnorteado. Dificilmente escaparia de uma goleada e ele não só não poderia ajudar, como estava do outro lado. A Udinese vencia por 2×1 quando Zico foi chamado para o aquecimento, sob aplausos. Aos 40 minutos, entrou no lugar de Surjak. Zico estava contra o Flamengo.

Estava? O primeiro lance de Zico com a camisa da Udinese foi um lançamento logo, de trinta metros. A bola parou no peito de Júnior. Nada poderia ser mais emblemático. Pouco depois, Zico tentou e errou uma tabela. Seu corpo estava na noite do Friuli, sua alma estava no Maracanã. E acabou o primeiro tempo.

Disse Zico: “O pior foi a espera pelos cinco minutos, sentado no banco de reservas do meu novo clube, aguardando a hora de fazer uma coisa que jamais imaginei: jogar contra a camisa que foi minha metade da vida. Uma sensação muito desagradável, porque eu via que o Flamengo não estava bem.” O jogo seguiu sem Zico e a Udinese, perdendo muitos gols, venceu por 4×2. Mais tarde, todos os rubro-negros puderam ouvir, pela Rádio Tupi, o relato de Mozer sobre o que sentiu quando Zico entrou em campo: “Foi como se um dia de sol, de repente, virasse noite”.

Pelo menos para um rubro-negro, a estranha sensação de ver Zico contra o Flamengo havia acontecido dois anos antes. Zé Carlos era o goleiro dos juniores do Flamengo em 1981, e o time de garotos foi chamado para enfrentar a seleção brasileira principal, no dia 5 de maio. Era apenas um coletivo no Maracanã, parte da preparação do Brasil de Telê Santana visando a excursão européia. Nada disso importava a Zé Carlos, que só tinha um pensamento: “Zico vai jogar contra o Flamengo e eu sou o goleiro”.

O Maracanã estava fechado para o público, mas Zé Carlos sentia aquelas arquibancadas lotadas. A seleção, de camisas de treino, cercava os juniores do Flamengo, com suas camisas de jogo. “Eu não posso deixar Zico fazer um gol contra o Flamengo”, repetia mentalmente o jovem goleiro. César marcou 1×0 para a seleção e o treino se aproximava do final, com Zico jogando longe da área.

Então aconteceu um pênalti. Para todos, só mais um lance do coletivo, que seria esquecido na história. Para Zé Carlos era um pênalti que Zico cobraria contra o Flamengo, com ele no gol. Zico contra o Flamengo era a inversão da ordem natural das coisas, mas lá estava ele ajeitando a bola na marca fatal.

Zé Carlos via quase todos os dias Zico cobrando pênaltis na Gávea. Canto direito, canto esquerdo, não havia como prever. O único padrão era a bola entrando rente ao poste. Não bastava acertar o lado, era preciso saltar como nunca.

Com o sol na cara, Zé viu seu ídolo correr para a bola e pensou “vou para o canto esquerdo”. Quando Zico firmou o pé de apoio, Zé Carlos voou com as mãos espalmadas. Em câmera lenta, viu a bola crescer em sua direção, mas não parecia possível alcançá-la. Esticou os braços até o limite da musculatura e, de olhos fechados, sentiu que algo havia tocado a ponta de seus dedos. Quando caiu no chão, abriu os olhos. A rede não estava balançando e a bola quicava além da linha de fundo.

Zico se aproximou do jovem Zé Carlos, passou a mão em sua cabeça e disse: “Boa, garoto”. Mais tarde, no ônibus a caminho de casa, o goleiro não parava de pensar que havia evitado o incestuoso gol de Zico contra o Flamengo, e chorava um choro tão silencioso quanto o Maracanã vazio naquela tarde de terça-feira. Quando fechava os olhos, ainda podia ouvir a voz de Zico: “Boa, garoto”.

Há uma terceira história de Zico contra o Flamengo. Ela aconteceu no dia 21 de junho de 1994 e o Flamengo venceu o Kashima Antlers por 2×1. Mas essa é uma história que não vai ser contada, porque o dia em que Zico abandonou os gramados não deveria jamais ter existido.

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